Matérias Radioativas

No inicio do último terço da lista das classes do livro laranja das Nações Unidas temos as matérias radioativas (7). Embora o transporte destas matérias esteja bem regulamentado, e obedeça a regras rígidas de segurança e sinalização, a existência de muitos preconceitos faz com que a radiação seja, ainda hoje, temida, e o símbolo do trifólio encarado com muito receio.

Classe 7 – Matérias RADIOATIVAS

Matérias contendo radionuclídeos (átomos instáveis que, para estabilizar, libertam energia, como radiação) com atividade mássica e total em cada remessa ultrapassam valores tabelados. Estas matérias podem ter várias finalidades como, por exemplo, a medicina, a industria ou a defesa.

UNIDADES DE MEDIDA

Ao longo deste artigo são usadas duas unidades de medida do sistema internacional (SI), são elas o becquerel (Bq) e o sievert (Sv).

Unidades de medida becquerel e sievert.

Becquerel (Bq) – O becquerel é a unidade do SI para a radioatividade. De uma forma simplista podemos assumir que 1 Bq é igual a uma desintegração por segundo;

Sievert (Sv) – O sievert é a unidade SI para a dose equivalente e efectiva. A dose equivalente representa a dose média absorvida num determinado órgão ou tecido, já a dose efectiva é a soma de todas as doses equivalentes, em todos os orgãos e tecidos do corpo.

EmBALAGEM / PACOTE

Fonte radioativa + Embalagem = Pacote

Embalagem: o conjunto de componentes necessários ao envolvimento total do conteúdo radioativo;

Pacote: a embalagem com o seu conteúdo radioativo tal como se apresenta para o transporte.

TIPOS DE PACOTE

Pacotes Isentos – UN 2908, UN 2909, UN 2910, UN 2911 – Embalagem que contém quantidades muito pequenas de matérias radioativas e em que os riscos radiológicos potenciais durante o transporte são muito baixos. Embora não haja requisitos especiais, deve satisfazer as condições gerais aplicáveis a todas as embalagens e pacotes;

Exemplo de pacotes isentos.

Pacotes Industriais (IP) – LSA: UN 2912, UN 3321, UN 3322, UN 3324, UN 3325 / SCO: UN 2913, UN 3326 – Embalagem que satisfaz as especificações gerais aplicáveis a todas as embalagens e pacotes e é utilizada para transportar matérias radioativas de baixa actividade específica (LSA “low specific activity“) ou objectos contaminados superficialmente (SCO “surface contaminated object“);

Exemplo de pacote industrial.

Tipo A – UN 2915, UN 3327, UN 3332, UN 3333 – Embalagens concebidas para transportar quantidades pequenas de material radioativo e testadas para resistirem a acidentes menores em condições normais de transporte;

Exemplo de pacotes de tipo A.

Tipo B – B(U): UN 2916, UN 3328 / B(M): UN 2917, UN 3329 – Embalagens concebidas para resistir a condições acidentais graves, sem violação do conteúdo ou aumento dos níveis de radiação, e testadas a nível mecânico, térmico, de imersão, etc. Este tipo de pacote pode ter aprovação unilateral [B(U)] ou multilateral [B(M)];

Exemplo de pacotes de tipo B(U), dois da esquerda, e do tipo B(M), o da direita.

Tipo C – UN 3323, UN 3330 – Embalagem concebida para resistir a esmagamento severo, incêndios, perfurações e impactos a alta velocidade; pensada para transporte aéreo de actividades mais elevadas.

Exemplo de pacote do tipo C.

Índice de Transporte / Categorias

O índice de transporte (transport index) é obtido dividindo a taxa de dose máxima (em μSv/h), medida a 1 metro da superfície do pacote, por 10.

Associando o índice de transporte (IT) com a categoria chegamos à sinalização adequada para transporte.

Exemplo: Transporte de Césio-137 (Cs-137) e Estrôncio-90 (Sr-90) com uma actividade de 65 mega becquerel (65 MBq). Efectuam-se as medições para avaliar o IT: taxa de dose máxima em contacto é de 100 μSv/h, já a 1 metro do pacote é de 6,3 μSv/h. Divide-se este último valor por 10 e temos 0,63. Assim, o IT será de 0,7 e a categoria será II (amarela). A sinalização, totalmente preenchida, será:

Nota: o ADR prevê que as medições sejam feitas em milisievert/hora (mSv/h), nesse caso para se obter o IT deve-se multiplicar o valor obtido na medição a 1 metro por 100. Neste artigo usa-se a unidade microsievert/h (μSv/h) devido a ser a mais usada nos equipamentos dos APC. [1 mSv = 1000 μSv]

Matéria Cindível

As matérias cindíveis (“fissile“) são aquelas que contêm pelo menos um dos seguintes nuclídeos cindíveis: Urânio-233 (U-233), Urânio-235 (U-235), Plutónio-239 (Pu-239) ou Plutónio-241 (Pu-241).

Transporte de material cindível (UN 2977).

SINALIZAÇÃO CLASSE 7 [ADR]


Categorias I (7A) / II (7B) / III (7C) – Risco de absorção e de radiação externa. A sinalização referente à categoria I (branca) não requer inscrição do índice de transporte;


Perigo Primário (7D) – Sinalização (placa-etiqueta) indicativa de perigo primário radioativo. A ser usada em contentores, contentores para granel, CGEM, MEMU, contentores-cisterna, cisternas móveis e veículos. Pode ser substituída por modelos ampliados de etiquetas 7A, 7B ou 7C. O uso do termo “RADIOACTIVE” é facultativo, podendo ser deixado o espaço em brando para ser inscrito o número ONU.


Matéria Cindível (7E) – Risco de reação nuclear em cadeia. Esta sinalização é acrescentada às anteriores, sendo colocado ao lado da sinalização de categoria correspondente;

CLASSE 7 – INTERVENÇÃO

O conceito base da proteção radiológica é o ALARA (“As Low As Reasonably Achievable“). De acordo com este principio todas as exposições (a fontes radioativas) devem ser mantidas tão baixas quanto possível, tendo em conta o desempenho da missão.

Em caso de intervenção, ao conceito ALARA, associam-se três principios: tempo, distância e blindagem.

Tempo, distância e blindagem. (imagem retirada do twitter da EPA)

Tempo: Limitar o tempo de exposição a uma fonte radioativa. Reduzindo o tempo de exposição para metade, reduz a dose para metade.

Distância: Aumentar a distância à fonte. A dose varia com o inverso do quadrado da distância, o que de uma forma mais simples significa duplicar a distância reduz a dose em quatro vezes (exemplo: se a 40 cm da fonte temos uma dose de 5 mSv/h, aumentando a distância para 80 cm a dose decresce para 1,25 mSv/h).

Blindagem: Criar (ou aproveitar) barreiras entre o indivíduo e a fonte radioativa.

Exemplos de blindagem para partículas alfa e beta, e radiação gama e neutrónica.

Como já abordado anteriormente, a ANEPC, publicou em 2009 um Manual de Intervenção em Emergências Radiológicas. Este caderno deve ser encarado como basilar em qualquer intervenção em acidentes envolvendo material radioativo, e encontra-se para download na área destinada às publicações.

Em caso de se deparar com matérias da classe 7 envolvidas num acidente, sendo que estas não apresentam perigo visível, deve o APC tomar todas as mediadas para garantir que o principio ALARA, conjugado com tempo, distância e blindagem, é cumprido. Devem ser contactadas, pelos canais previstos e o mais rápido possível, as autoridades técnicas de intervenção desta área específica. O recolher, em segurança, do máximo de informação sobre as matérias envolvidas pode revelar-se fundamental para uma intervenção eficiente.

intervir.pt | tome parte.


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