O GEBMO de Ludwig Benner Jr.

É usual ouvir-se que perante um acidente envolvendo matérias perigosas pouco ou nada há a fazer... como se as ações no terreno fossem inconsequentes e os efeitos do evento uma inevitabilidade, mas talvez não tenha de ser assim!

É usual ouvir-se que perante um acidente envolvendo matérias perigosas pouco ou nada há a fazer… como se as ações no terreno fossem inconsequentes e os efeitos do evento uma inevitabilidade, mas talvez não tenha de ser assim!

Ludwig Benner Jr.

No início dos anos 70, Ludwig Benner Jr., um engenheiro químico que trabalhava no National Transportation Safety Board (NTSB), demonstrou que não é bem assim e criou um modelo de comportamento de acidentes envolvendo matérias perigosas que, com algumas atualizações, se mantem válido aos dias de hoje: o “General Hazardous Materials Behavior Model”, também conhecido por GEBMO (de “General Emergency Behavior Model”).

O GEBMO nasceu da investigação de diversos acidentes envolvendo matérias perigosas, que Ludwig analisou enquanto membro do NTSB, nomeadamente a explosão de um reservatório de LOX (liquid oxygen / oxigénio líquido) num hospital de Brooklyn (New York) em 1970, o acidente ferroviário envolvendo GPL (gases de petróleo liquefeito) ocorrido no mesmo ano em Crescent City (Illinois), o acidente ferroviário ocorrido em 1971 em Houston (Texas) com cloreto de vinilo (vinyl chloride), entre outros. As suas observações, que fugiam um pouco daquelas mais comuns, nomeadamente as que provinham de elementos ligados ao socorro, causaram alguma agitação no seio do NTSB, tendo então sido desafiado por um colega investigador a fazer algo: “You’re so damn smart, why don’t you show us how!” (És tão inteligente, porque não nos mostras como se faz!).

Análise do acidente envolvendo LOX em 1970

Entre 1972 e 73, anos que permitiram um alívio de investigações, Ludwig Benner Jr. desenvolveu duas ferramentas: o modelo de análise GEBMO e o processo de decisão D.E.C.I.D.E., ambos com vista a auxiliar aqueles que tinham de tomar decisões críticas para resolver uma emergência. O primeiro permitia compreender o desenrolar da ocorrência, contribuindo para um aumento da consciência da situação (situational awareness) e possibilitando antecipar momentos que poderiam romper o efeito dominó, já o segundo sistematizava a resposta, aplicando num ciclo as 6 etapas que procuravam identificar, analisar, decidir, aplicar e monitorizar as melhores ações para os diferentes momentums da ocorrência. Reforço que estas ferramentas surgiram em 1974, o mesmo ano do nosso 25 de abril… há 51 anos!

Primeiros conceitos de D.E.C.I.D.E. e GEBMO de 1974

Sendo que ambas as ferramentas requerem um estudo bastante mais aprofundado, com vista a compreender a sua estrutura e a perceber a sua aplicação prática, e considerando o parágrafo/motivação inicial, gostaria de abordar aqui um pouco mais o GEBMO.

De forma genérica, o General Hazardous Materials Behavior Model é um modelo conceptual utilizado para compreender e prever a sequência de eventos num incidente envolvendo matérias perigosas, procurando auxiliar os operacionais a antecipar potenciais perigos e a desenvolver estratégias de resposta eficazes.

GEBMO após revisão de 1976

Uma análise ao modelo inicial (1974) simples permite identificar as seguintes 7 fases:

  • Stressing event occurs: um evento causa stress num reservatório, sendo que poderá ser de origem térmica, mecânica, química ou humana;
  • Container breach occurs: por consequência direta do stress sofrido, ou indiretamente devido à reação da(s) matéria(s) armazenada(s), ocorre uma rutura no reservatório que poderá ser na forma de explosão, detonação, de rápida libertação ou fuga/derrame;
  • HM matter or energy (m/e) escapes: a rutura irá então originar uma libertação do(s) produto(s) armazenado(s), seja nos diferentes estados da matéria (sólido, líquido ou gasoso), na forma de energia, ou de combinando os anteriores;
  • HM m/e engulfs danger zone: a dispersão ocorre sendo que será tipificada pela sua força motriz, a rota, o padrão e a distância que poderá alcançar;
  • HM m/e impinges on targets: o(s) produto(s) libertado(s) atingem um alvo (ser humano, animais, ambiente e/ou propriedade) de forma transitória, persistente ou permanente;
  • HM m/e harms impinged targets: como consequência das propriedades do(s) produto(s) libertado(s), o alvo sofre danos térmicos, de radiação, asfixiantes, químicos, etiológicos ou mecânicos (conceito atualizado para TRACEM-P com o acrescento de “P” para psicológicos);
  • Remedial efforts attempted: medidas são tomadas para mitigar as consequências do dano causado, que podem passar por primeiros socorros no local, hospitalização, combate a incêndios, entre outros.

Desde a sua criação, o GEBMO tem sofrido várias atualizações para refletir a natureza evolutiva dos acidentes com matérias perigosas e dos procedimentos de resposta. As principais atualizações surgiram em 1976, 1980 e 1999, sendo que esta última inclui uma modelação para investigação de acidentes.

GEBMO após atualização de 1999

Ludwig Benner Jr. faleceu a 15 de novembro de 2021, com 94 anos de idade, mas a sua visão não morreu com ele, felizmente a sua família mantém o sítio onde ele partilhava todo o seu trabalho com o mundo, a “The Complete Library of Ludwig Benner Jr’s Work”. A sua citação de abertura diz muito sobre a mentalidade deste Mestre: “Estas páginas contêm cópias da minha pesquisa e de outros trabalhos da minha biblioteca pessoal. O meu objetivo ao publicá-los aqui é tornar estas obras facilmente acessíveis a investigadores, familiares e amigos. Comentários ou observações sobre este site ou estas obras serão bem-vindos”.

7as Jornadas Internacionais de Matérias Perigosas, Sta Maria da Feira (2024)

Tenho estudado bastante a forma como Ludwig Benner Jr. abordou a temática “HAZMAT”, como se dedicou ao seu estudo e análise, e mesmo com a evolução tecnológica e científica, acompanhada por regulamentos que visam uma maior segurança preventiva, penso que tanto o GEBMO como o D.E.C.I.D.E. (processo de decisão para intervenções) são válidos aos dias de hoje. Podem ser afinados e ajustados, nomeadamente ao nível de conceitos e de doutrinas, mas devem ser vistos como importantes ferramentas para todos os que poderão estar envolvidos em emergências com matérias perigosas e agentes NRBQ.

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