NRBQ: Agentes Químicos

Este artigo, o primeiro da série dedicado à temática NRBQ, pretende dar a conhecer, de forma geral, as características e os efeitos dos agentes químicos de guerra (AQ).

Um AQ é uma substância química, utilizada com fins militares, com o intuito de matar, ferir gravemente ou incapacitar indivíduos.

Depósito de armas químicas nos EUA. Dermotóxicos/Mostarda (HD).
  • Agentes químicos letais:
    • Neurotóxicos (nerve agents): Tabun (GA), Sarin (GB), Soman (GD) e VX;
    • Hemotóxicos (blood agents): Ácido cianídrico (AC) e Cloreto de cianogénio (CK);
    • Dermotóxicos (blister agents): Mostarda (HD) e Lewisite (L);
    • Asfixiantes (choking agents): Cloro (Cl) e Fosgénio (CG).
  • Agentes de controlo de motins:
    • Gás lacrimogéneo (CS e CN).

PROPRIEDADES

Estado físico

A maior parte dos AQ são líquidos, embora sejam normalmente disseminados sobre a forma de gás, e disso depende a sua eficácia. Um exemplo disso foi o atentado perpetrado pela seita Aum Shinrikyo (verdade suprema) no metro de Tóquio em 1995: os invólucros contendo sarin no estado líquido não foram sujeitos a nenhum processo que acelerasse a sua evaporação, pelo que esta ocorreu de forma natural fazendo com que as pessoas expostas ao agente não tenham sido sujeitas a grandes concentrações. Ainda assim, das milhares de pessoas expostas ao AQ várias dezenas morreram, e houve um caso de uma vitima ter estado hospitalizada 14 anos, acabando por falecer em 2009.

Um dos perigos da disseminação dos AQ é o off-gassing. Estes agentes podem ser, por exemplos, dispersados sobre neve, onde as temperaturas negativas o irão manter no estado líquido. A neve, ao evaporar, irá provocar a gaseificação do agente.

Os agentes de controlo de motins, no entanto, são a exceção ao exposto anteriormente: apresentam-se no estado sólido e são disseminados sobre a forma de partículas suspensas.

Pastilhas de CS.
Vias de entrada / exposição

As vias de exposição mais comuns para os AQ são a inalação, ingestão e absorção cutânea.

Representação das vias de exposição (ingestão/inalação/absorção cutânea)
Persistência

A persistência de um AQ está ligada à sua volatilidade: um agente será mais persistente quanto menos volátil for. Em termos militares, um agente pode ser “persistente” ou “não persistente” sendo que os agentes persistentes são aqueles que se mantêm no estado líquido pelo menos 24 horas.

A persistência de um agente é influenciada pelas suas propriedades fisico-químicas, pelas condições meteorológicas e pelas características da superfície onde foi disseminado, entre outros.

Por vezes, para aumentar a persistência de um AQ, este é sujeito a um processo de espessamento.

CARACTERÍSTICAS DOS AGENTES

Cartazes da Segunda Guerra Mundial sobre os AQ e seus odores característicos.
Neurotóxicos

Atuação: Os agentes neurotóxicos agem interrompendo a comunicação normal entre os nervos e os órgãos receptores, bloqueando a atividade da enzima “acetylcholinesterase” (acetilcolinesterase) que deveria inativar o neurotransmissor “acetylcholine” (acetilcolina), provocando um hiperestimulo dos músculos e das glândulas, afectando o sistema nervoso central.

Actuação dos agentes neurotóxicos (exemplo do sarin).

Exposição: inalação, ingestão e absorção.

Estado físico a 20ºC: líquido.

Cor: o sarin e o soman são incolores, já o tabun e o VX apresentam uma variação de cores mediante a sua pureza.

Odor: o tabun tem um odor frutado e o soman tem um odor a cânfora, já o sarin e o VX são inodoros.

Sintomatologia: miose, corrimento nasal, sudorese e salivação excessiva, dificuldades respiratórias e convulsões.

Notas: Um agente neurotóxico não mencionado neste artigo, ma que tem tido muita atenção dos media desde o envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal, é o Novichok. Esta família de agentes químicos foi desenhada na ex-União Soviética com a finalidade de iludir os detectores da OTAN (usando os parâmetros em uso na Guerra Fria), ultrapassar as barreiras/filtragens dos equipamentos de proteção individual da Aliança, ser mais seguro de manusear e para contornar o previsto nos acordos da OPCW. Não existem muitas informações fidedignas sobre este agente.

Hemotóxicos

Atuação: Os agentes hemotóxicos agem interrompendo a absorção de oxigénio das células. Como as células são incapazes de usar o oxigénio, este permanece ligado à hemoglobina, causando a aparência avermelhada da pele. Sem oxigénio, as células procuram o metabolismo sem oxigénio (metabolismo anaeróbio), resultando em falhas no funcionamento do cérebro e do sistema nervoso central.

Exposição: inalação.

Estado físico a 20ºC: gasoso.

Cor: incolores.

Odor: odor a amêndoa amarga.

Sintomatologia: perda de consciência, convulsões e dificuldades respiratórias.

Dermotóxicos

Atuação: Os agentes dermotóxicos actuam primariamente pela destruição da pele (derme), mas os seus efeitos estendem-se às vias aéreas e olhos. Os efeitos causados pelas flictenas é tal que pode, no caso do agente mostarda, causar danos na espinhal medula. Normalmente a morte é causada por infeção generalizada.

Exposição: inalação, ingestão e absorção.

Estado físico a 20ºC: líquido.

Cor: tanto a mostarda como a lewisite têm uma tonalidade que varia de amarelo pálido a castanho escuro conforme a pureza.

Odor: mostarda tem odor a alho e a lewisite a gerânios.

Sintomatologia: eritemas, flictenas, irritação dos olhos e dificuldades respiratórias.

Notas: O agente mostarda não apresenta sintomas imediatos, o eritema poderá surgir apenas 4 a 8 horas após a exposição.

Asfixiantes

Atuação: Os agentes asfixiantes danificam os alvéolos preenchendo-os com fluidos e, desta forma, impedindo a entrada de ar. As vitimas morrem asfixiadas, com sintomas semelhantes à morte por afogamento.

Exposição: inalação.

Estado físico a 20ºC: líquido.

Cor: O cloro tem uma tonalidade que varia de verde a amarelo, enquanto o fosgénio é incolor.

Odor: Cloro tem o seu odor característico, já o fosgénio cheira a relva acabada de cortar.

Sintomatologia: tosse e dificuldades respiratórias.

Agentes de controlo de motins

Atuação: Este tipo de agentes atua pela incapacitação, causando dor e sensação de ardor nas mucosas e pele.

Exposição: inalação e absorção.

Sintomatologia: corrimento nasal, lacrimejar, dificuldades respiratórias, eritemas.

OS AQ e os agentes de proteção civil

É vital que os agentes de proteção civil (APC) tenham a capacidade de identificar a presença dos AQ num teatro de operações (TO), e esta identificação é feita primariamente pela avaliação dos sinais e sintomas presentes. Os detectores de produtos químicos são a melhor ferramenta, mas a verdade é que dificilmente estarão presentes no TO numa primeira fase.

Os APC devem ter em mente que nenhuma vitima presente no TO apresentará todos os sintomas, a análise deverá ser feita numa larga amostra das vitimas. Os efeitos mais severos, num curto período de tempo e para vitimas expostas a altas concentrações de agente, são causados por neurotóxicos e hemotóxicos. Ambos podem causar perda de consciência, convulsões e morte em poucos minutos. Se alguma das vitimas apresentar estes sintomas, o APC deve procurar outra sintomatologia destes agentes em vítimas mais “ligeiras”. As dificuldades respiratórias são o sintoma “base” na maior parte dos AQ.


Os efeitos meteorológicos como a temperatura, humidade, precipitação ou velocidade do vento têm um grande impacto na eficácia de um AQ. Por esta razão, e pela influência da meteorologia em todos os incidentes (HAZMAT ou NRBQ), haverá um artigo dedicado a essas condicionantes nas próximas semanas.


Muito mais haveria a falar sobre os agentes químicos de guerra, mas neste artigo procurou-se apresentar as características básicas destes agentes. Haverá espaço para um artigo sobre primeiros socorros para AQ.

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