Matérias Perigosas vs NRBQ, ou não!

Embora os eventos Nucleares Radiológicos Biológicos e Químicos (NRBQ), além de raros, requeiram uma resposta de nível nacional, envolvendo estruturas militares, a verdade é que a linha entre esses eventos e os incidentes envolvendo equipas de matérias perigosas (HAZMAT) é cada vez mais ténue.

Casos, relativamente recentes, como o alegado uso de Novichok em Salisbury (Março de 2018) ou o envenenamento de Alexander Litvinenko com polónio-210 (Novembro de 2006), mostram que os agentes de proteção civil (APC) são a primeira linha de resposta, estando expostos aos efeitos das matérias usadas.

No primeiro caso, o uso de Novichok, vinte e uma pessoas receberam tratamento médico após o envenenamento de Sergei Skripal e da sua filha Yulia, a maior parte deles APC, os primeiros no teatro de operações (TO). Os incidentes de Salisbury colocaram um “nível extraordinário de procura” (Comissário Angus Macpherson) nos recursos das forças de segurança do Reino Unido. Os custos das compensações, seja ao nível de (re)incentivo ao turismo ou operações de resposta e descontaminação no TO, ultrapassaram os dois milhões de euros.

Matérias Perigosas

Matéria perigo é, por definição, qualquer substância (pura ou em mistura) que, pelas suas propriedades, possa causar danos à saúde humana, aos animais ou ao meio ambiente.

As diferentes classes de matérias perigosas, definidas pelo livro laranja das Nações Unidas, foram abordadas nos seguintes nove artigos:

Armas e dispositivos nrbq

Terminologia: NBQ / NRBQ / BQR / CBRN / CBRNe

Existem várias formas para apresentar a sigla NRBQ. Em Portugal, por exemplo, a Força Aérea e a Marinha usam “NRBQ: Nuclear Radiológico Biológico e Químico” enquanto o Exército utiliza “BQR: Biológico Químico e Radiológico”. No entanto, esta distinção, existe apenas na forma não no conteúdo.

Emblemas do “Elemento de Defesa BQR” e da “Esquadrilha de Defesa NRBQ”.

A nível global, onde as coisas estão um pouco mais uniformizadas, a sigla utilizada é “CBRN: Chemical Biological Radiological and Nuclear“. Como muitas equipas NRBQ incorporam a capacidade de inativação de engenhos explosivos, tem-se vindo a usar de forma mais recorrente a sigla “CBRNe: Chemical Biological Radiological Nuclear and Explosives“.

Representação CBRNe.
Arma NRBQ

Mecanismo detalhado, desenhado com a finalidade de causar a libertação de um agente químico ou biológico, de material radioativo num determinado alvo, ou de provocar uma detonação nuclear.

Depósito de armas químicas dos EUA. Gás Mostarda (HD).
Dispositivo NRBQ

Dispositivo improvisado, ou processo intencional, cuja finalidade é causar a libertação de um agente ou substância química, biológica ou de material radioativo para o meio ambiente.

HAZMAT VS nrbq (!?)

Os incidentes HAZMAT referem (normalmente) fugas acidentais de produtos químicos, biológicos ou de material radioativo, seja como consequência de um acidente envolvendo transporte de matérias perigosas ou como resultado de um incêndio industrial. Os eventos NRBQ, em contraste, compreendem atos deliberados ou agressivos e com a intenção específica de incitar o terror ou causar danos físicos ou ambientais. Assim, a intenção é o elemento diferenciador.

Intenção [exemplo]

Embora os incidentes HAZMAT possam envolver várias substâncias, com um ou mais perigos, neste exemplo será usada “apenas” um: a radioatividade.

Os eventos ocorridos em Fukushima (Japão 2011) e Chernobyl (Ucrânia 1986) são exemplo (extremo) de um acidente HAZMAT.

No lado oposto, no que à intenção diz respeito, temos o uso deliberado de armas nucleares pelos Estados Unidos da América, em Hiroshima e Nagasaki (Japão 1945).

Duplo uso (dual-use)

Existem matérias que, por poderem ser usadas tanto para fins militares como civis, são classificadas como “dual-use”.

Em janeiro de 2010, por exemplo, houve uma libertação acidental de fosgéneo numa fábrica da DuPont que causou a morte de um trabalhador da empresa. O fosgéneo (“phosgene” PS), de acordo com a OPCW, é um agente químico letal “dual-agent“, inserido na “família” dos asfixiantes (choking agent), que nesta instalação industrial seria utilizado na produção de cinco outros produtos químicos.

O vídeo apresentado de seguida é uma reconstituição do Chemical Safety Board (EUA) do referido incidente.

Âmbito da resposta

Em Portugal, se tivermos em consideração incidentes de matérias perigosas, a reposta é garantida 99,99% das vezes por APC. Assim, é importante que estes compreendam a necessidade de reconhecer a presença de matérias que se enquadrem nas definições NRBQ e saibam aplicar o previsto na Diretiva Operacional Nacional n.º3 – Dispositivo Integrado de Operações NRBQ.

próximos PassoS/ARTIGOs

Nas próximas semanas os artigos serão dedicados à temática NRBQ. Numa primeira fase irão serão abordadas as características e efeitos para químicos, biológicos e radiológicos, de seguida haverá espaço para alguns procedimentos de primeiros socorros NRBQ.

Todas as publicações e doutrinas utilizadas para a composição dos artigos será baseada em publicações disponíveis para o público como, por exemplo, o livro da IHS (information handling services) “Jane’s CBRN Response Guidebook” ou as publicações da ANEPC.

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