Combustível rodoviário e aeronáutico

Das várias substâncias que todos os dias cruzam as nossas estradas, a que um agente de proteção civil (APC) terá maior probabilidade de ver envolvida num incidente hazmat é, sem dúvida, o combustível.

De acordo com dados recolhidos no relatório de maio de 2019 da Entidade Nacional para o Sector Energético (ENSE), em Portugal, consumiu-se desde o início do ano 1,622,379 toneladas de gasóleo, 326,631 toneladas de gasolina e 125,577 toneladas de JET (combustível aeronáutico). Partindo destes valores, e considerando que quase a totalidade das 2,074,587 toneladas de combustível é transportado por estrada, em cisternas com capacidade (média) de 30 toneladas, podemos inferir que tal implicou cerca de 70 mil movimentos.

Combustível Rodoviário

Os combustíveis rodoviários são a gasolina e o gasóleo, dentro de cada um destes tipos cabem as suas variantes simples (gasolina 95 e gasóleo) e os premium (gasolina 98 e os vários tipos de gasóleo aditivado), há ainda a questão dos chamados low cost, mas tal referência diz respeito ao tipo de funcionamento do posto de venda e não ao combustível que é vendido.

Para os APC, como pode ser verificado nos números da ENSE, estes derivados do petróleo representam a maior fatia de matérias perigosas a circular por estrada e a ser armazenada nos postos de abastecimento, por exemplo, a estação da Galp no acesso sul da ponte vasco da gama tem reservatórios para 385 m³ de combustível.

Combustível Aeronáutico

Na aeronáutica nacional são dois os combustíveis dominantes: a derivada da gasolina aviation gasoline (AVGAS) 100 LL (cem octanas com baixo teor de tetraetilo de chumbo – low lead), e o derivado do querosene Jet Fuel. Este último tem vários subtipos, mas o de maior expressão é o JET A-1.

De forma geral, as aeronaves modernas, civis ou militares, com motores a reação utilizam o JET A-1, sendo que o AVGAS 100LL é usado em modelos mais antigos ou motores a pistão.

Procedimento de teste ao AVGAS 100 LL.

Propriedades dos combustíveis

Como já referido em outros artigos, é importante conhecer as propriedades físico-químicas das substâncias envolvidas num incidente. Por isso, de seguida, é apresentada uma tabela comparativa das características dos combustíveis rodoviários e aeronáuticos mais prováveis de ser encontrados nas nossas estradas. Cada coluna é encabeçada por um combustível, com link para a respectiva ficha de dados de segurança, de seguida, e ao longo da tabela, serão destacados a negrito os valores que poderão ser encarados como os de maior índice de perigosidade para os APC.

Propriedade FQGasóleoGasolina 95Gasolina 98AVGAS 100LLJET A-1
CorÂmbarVioletaAzulAzulÂmbar
ADR (UN/Perigo)1202/301203/331203/331203/331863/30
P.Inflamação> 55ºC< -40ºC< -40ºC< -40ºC≥ 38ºC
P.Ignição254ºC280ºC280ºC280ºC207ºC
LIE/LSE (%)0,6 / 6,51,4 / 7,60,6 / 81,4 / 7,60,6 / 6
P.Ebulição160ºC30ºC30ºC40ºC140ºC
Pressão Vapor (38ºC)0,4 kPa45 kPa45 kPa38 kPa2 kPa
Densidade Vapor> 1> 1> 1> 1> 1
Densidade Relativa0,8 (20ºC)0,6 (15ºC)0,6 (15ºC)0,6 (15ºC)0,7 (15ºC)
Miscibilidadeimiscívelimiscívelimiscívelimiscívelimiscível

Uma rápida análise da tabela permite confirmar a maior perigosidade das gasolinas, com a conjugação da maior volatilidade a baixas temperaturas e o ponto de inflamação negativo. Já o Gasóleo e o JET A-1 apresentam características semelhantes, com excepção nos pontos de inflamação e ignição, oferecendo mais “segurança” que as gasolinas. Todos os tipos de combustível analisados apresentam valores idênticos para a densidade de vapor, densidade relativa e miscibilidade.

Sinalização para combustíveis

Ao nível da sinalização, o transporte destes combustíveis partilha as mesmas disposições do ADR, variando apenas as inscrições no painel laranja (ver tabela acima).

Exemplos de transporte de Gasóleo, Gasolina e Jet A-1.

Por norma, o seu transporte é efectuado em cisternas com forma elíptica.

Vista lateral e traseira de uma cisterna de líquidos inflamáveis. (imagem da ENB)

Existem outras sinalizações que permitem uma rápida distinção dos vários tipos de combustível presente, sejam eles rodoviários e/ou aeronáuticos.

Vídeo explicativo da rotulagem harmonizada para combustíveis. (Galp)

Conclusão

A perigosidade dos combustíveis, sejam eles inflamáveis ou muito inflamáveis, não é novidade para os APC. Ainda assim, este artigo, procura escalpelizar os cinco tipos de combustíveis mais prováveis de serem envolvidos num incidente hazmat, apresentando as principais propriedades fisico-químicas do gasóleo, da gasolina 95 e 98, do AVGAS 100LL e do JET A-1. Conhecer, e compreender, cada uma das propriedades dos combustíveis será uma ferramenta vital para uma intervenção eficiente.

Outro ponto realçado é a sinalização destes produtos, algo vital para o (sempre presente) reconhecimento. Como sugestão de reflexão fica a comparação entre a placa-etiqueta para a classe 2.1 (gases inflamáveis) e a da classe 3 (líquidos inflamáveis), na América do Norte esta sinalização é acompanhada com a inscrição flammable gas, flammable liquid ou simplesmente flammable, já no ADR não está prevista, para já, nenhuma inscrição além do número da classe. Assim, na óptica de um APC na fase de reconhecimento, tendo em conta apenas as placas etiquetas, qual é que facilitaria a identificação da substância envolvida? Não seria de considerar o aumentar dos números ou até uma inscrição (mesmo que em inglês) nas placas etiquetas?

Placas etiquetas norte americanas para as classes 2.1 e 3.

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